quinta-feira, 5 de julho de 2018

Por um fio


passei as mãos pelos cabelos com a desculpa de arrumá-los.
fiz dos dedos dentes de pente.
passei uma, duas, três vezes
alisando os fios com aparente carinho,
como um gato que se põe de barriga pra cima, num certo charme,
antes de se firmar no chão e atacar o passarinho.
eu, passando as mãos pelos cabelos, era o gato.
os dedos, feitos dentes de pente, logo virariam pinça
e arrancariam qualquer fio que julgasse fora do padrão.
puxei um, dois, três.
olhei de perto os fios arrancados e considerados inaptos
para permanecer nos cabelos.
procurei defeitos e inventei desculpas
que justificassem o assassinato.
tarde demais.
agora trago as mãos sujas por ter dado fim
a uma parte de mim.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Hemorragia


o poema
que coloquei no papel
não para de sangrar

se o papel estava limpo
e meus dedos sem cortes
só pode ser o poema
que sangra

como estanca?

tentei gelo no início do verso
água corrente na final da rima
até açúcar nas entrelinhas
e nada

deixo estar

esse poema
ainda deve ter muito
o que vazar

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Maturidade?


a criança pequena
tira e põe 
os brinquedos 
na caixa

ela quer tudo
ela quer nada
ela muda de ideia
se joga no chão
chora
esperneia

a criança grande
tira e põe
o que sente
no peito

ela quer tudo
ela quer nada
ela muda de ideia
mas não se joga no chão
não chora
não esperneia

a imaturidade da criança pequena
faz com que
passado alguns minutos
sua vida siga em frente

a maturidade da criança grande
faz com que
passado alguns anos
sua vida ainda esteja parada no tempo

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Melodia


se um dia
meus poemas
virassem canção
eu seria
melodia

seria ritmo
seria valsa
seria baile
e até trilha

mas enquanto
meus poemas
não passam de versos
eu sou só
poesia

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Limitação


antes fosse
só o tamanho
dos nossos corpos
que nos limitasse:
alcançar o pote
pular (toda) a poça
ver por cima do muro

pra caber no mundo
e não incomodar
gente grande
temos
que encolher
nossos planos
e limitar
nossos sonhos

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Formas


fico pensando
quais formas teriam
as coisas que sentimos

o alívio, por exemplo,
seria uma massinha com cheiro
tipo essas
que as crianças brincam

o medo
seria algo pontiagudo
que machuca a mão
se segurado por muito tempo

a raiva
seria como uma pedra em brasa
que de longe
já se pode sentir o calor

o amor, acredito,
seria um dente de leão
que vai se soltando
a cada sopro mais forte

terça-feira, 22 de maio de 2018

Cratera


o corte
pequeno e fundo
que trago
em uma das mãos
parece a miniatura
de uma cratera

é como se eu olhasse do céu
uma cratera na terra:
uma paisagem até bonita
levando em conta
que é fruto
de um desastre
um terremoto
um meteoro
ou até mesmo
de um vulcão

a cratera que carrego
em uma das mãos
é também uma paisagem bonita
levando em conta
que é, igualmente,
fruto
de um desastre