segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Contorno

contorno
você
com a ponta 
dos dedos

faço
uma moldura
do seu corpo

penduro você
na imaginação

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Destroços

entre discos
e taças
e fotos
guardo
alguns destroços

dou nomes
a eles

tiro pó
passo pano
cuido
tão bem
que nem pareço
quem
um dia esteve
sob escombros

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Você

tentei escrever
sobre você

tentei falar
sobre você

pensei
se ainda devo
tentar escrever
ou falar
sobre você:

esse alguém
que já
nem me lembro
mais

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Partida

a porta do elevador
se fecha
e ele desce
com você

assisto
sua última
partida

vejo
na mesa
nos quadros
nas taças
na cama revirada
que você
se recusa

a me deixar

terça-feira, 27 de junho de 2017

Reajustes

reajustaram
minha água
meu plano de saúde
minha tarifa no banco

reajustaram
tudo 
o que é meu

somente eu
sigo
em desajuste

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Modos

sento
sobre uma das pernas
meio de lado
meio torta
meio ou toda
atordoada

a coluna
forma um arco

arco
com a dor
de não seguir
as posturas

terça-feira, 28 de março de 2017

Gaiola

me prenderam
num corpo
de gente

numa gaiola
de pele

por dentro
sou pássaro

segunda-feira, 6 de março de 2017

Respiratório

concentro
na respiração

puxo o ar
conto o tempo
prendo o ar
conto o tempo
solto o ar

ele sai
furacão

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Sombras

dias de sol
crianças brincam
com suas sombras

assisto

queria eu
poder brincar
com as sombras
que me seguem
até nos dias nublados

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Achados e perdidos

um volta
no quarteirão
procurando
o que perdi
e nada

alguém encontrou
o que é meu
e levou

uma vida
dando volta em mim
procurando
o que perdi
e nada

ainda
não me encontrei

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Confronto

bato de frente
olho no olho
confronto
sem medo

não meço
palavras
ataco
reajo

no espelho
faço minha guerra
e fico
em paz

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Decomposição

nunca guardo
poemas
na gaveta

na gaveta
guardo
a lixa de unha
os remédios
o colírio
o halls preto
o isqueiro
os incensos

na gaveta
guardo até
os cartões de visita
que nem sei
onde peguei

mas nunca
nunca guardo
poemas

na gaveta
não guardo
perecíveis

poesia
é instante