quinta-feira, 12 de julho de 2012

Expressões


Ki ki ki, ki ki ki

Como se a cabine do banheiro fosse uma bolha
E poupasse os ouvidos alheios de fofoca
De mentiras
De verdades
“Você viu a roupa dela?”
“Vi, menina. E tá sabendo que já tão de olho?”
“Jura? Quem? Me conta!”


Ka ka ka, ka ka ka

Como se a vida fosse uma longa gargalhada
E obrigasse todo mundo a rir de alegria
De dor
De mágoa
“Fala de novo!”
“Ai meus Deus, tô até passando mal.”
“Só você mesmo!”


... ... ..., ... ... ...

Como se o silêncio fosse a coisa certa a se falar
E sugerisse a verdade entre os espaços
Os espasmos
Os espantos
“... ... ... .... ...”

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Eleição


Debaixo do viaduto, que divide o preço da pizza entre até 20 reais e acima de 50.
Ali vive gente que não tem dinheiro nem pro pão, imagine pra pizza.
Mas comem as sobras da sobremesa fina do rico.  Sabem que lixo de pobre vem em sacolinha de supermercado. Já lixo de rico vem em sacos azuis, uma espécie de uniforme pros restos.
Debaixo do viaduto, que triplica o preço dos imóveis de um dos lados.
O vai e vem dos carros os acorda toda manhã. Já sabem que o barulho que os desperta vem das latas velhas dos pobres. Os carros dos ricos não roncam, não batucam, não rosnam.
Debaixo do viaduto, que separa o luxo do lixo.
Ali os candidatos passam uma vez a cada quatro anos. Vão do lado rico para o lado pobre e, no meio do caminho, bem debaixo do viaduto, aproveitam para comprar votos. Votos que custam, em média, menos que a pizza de até 20 reais.

sexta-feira, 15 de junho de 2012


Sem tiro na cabeça
Sem faca no peito
Sem tortura
Sem chantagem
Sem ameaça
Sem dinheiro
Sem extorsão
Sem direito
Sem surra
Só censura
E assim se cala a boca do sujeito

terça-feira, 29 de maio de 2012

Sinceramente


Ouvi a verdade da boca mais sincera.
Há tempos era uma boca distante. Desde sempre, a mais próxima.
Engraçado como as palavras vindas dela batiam fortes, mas não doíam.
Batiam brutalmente fortes, mas não doíam.
Batia também a saudade daquela sinceridade.
Batia brutalmente forte. E doía.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Pena


A pena, olhando para a pena, sentiu pena de sua solidão.
- Por que vagas sozinha? – perguntou a pena à pena.
- Estava fraca demais e caí da asa da minha liberdade.
- Que pena.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Hoje não

Viva intensamente o seu passado
Esqueça o hoje
Ignore o amanhã
Sofra, choramingue
Remoa tudo
Tudo
Tu

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Sem parar

Correu tanto, tão rápido, que nem viu a vida passar.
Não viu a cor da rosa que relava na janela no quarto.
Não viu a cicatriz desenhada de tanto trombar na pressa.
Nem a rachadura no canto da parede da sala.
Nem a correspondência anônima de alguém que amava.
Correu tanto, tão rápido, que mal passou pela vida.
Não ouviu a história que a mãe contava.
Não ouvia a crítica que o sábio dava.
Nem a música orquestrada pelo vento e as folhas.
Nem o sussurro de alguém que amava.
Correu tanto, tão rápido, que passou mal pela vida.
Não viveu o momento que insistiu em acontecer.
Não viveu a alegria de tranquilo adormecer.
Nem o êxtase de acertar e reconhecer.
Nem a maturidade de errar e não sofrer.
Correu tanto, tão rápido, que nem viu a vida acabar.