Poesias de Mariana Teixeira
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Tatuagem
tatuava
o papel
com a caneta
de ponta mais fina
e de tinta mais forte
ele
parecia não sentir dor
ou desconforto
sua pele lisa
e antes pálida
ganhava cor
e a forma
de um livro
de poemas
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Escamas
Fizeram
um puxadinho na obra
e sumiram
com o tantinho de mar
que ainda tinha
Os peixes dali
que há algum tempo
já nadavam apertados
foram obrigados
a sair da água
e ficar em pé
sobre os pés
que nem tinham
Uns viraram almoço de gente.
Outros, janta de pássaro.
Os que conseguiram andar,
com medo de morrer,
se vestiram de homens
e ajudavam a matar
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Resistência
corcunda ficou
a última flor
que resistiu
dentro do vaso
a perna fina
mal ocupava um espaço
dentro daquela bocarra
de fundo azul
e bordas douradas
mesmo corcunda
e cabisbaixa
preferia ali ficar
a ter que murchar
a corcundice
deu à flor
um ângulo novo
para explorar
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Fumaça
a fumaça
saiu fugida
da caneca
parecia feliz
dançava leve
subia
subia dançando
até se entregar
nos braços do ar
em tempos frios
fez todo sentido
a ideia
de que o calor
liberta
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Migração
um congestionamento
que há muito tempo
não se via
era tanto congestionamento
que naquele dia
os pássaros pareciam parados
em fila
em pleno céu
desafiando a gravidade
há muito tempo
não se via
um congestionamento assim
de bichos-penas
que não viam a hora
de acabar o
rush
para voar em céus
de terras mais gratas
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Hipnose
A mesa posta
abarrotada de tudo
o que os dentes
podiam morder.
Garfos tilintavam
nas bordas das louças
e preenchiam os vazios
entre as conversas.
Tensão,
troca de olhares
e uma verdade
quase à tona.
No velho sofá
a família se espremia
para mais um capítulo
da novela.
Se esquecia
que nunca foi preciso
mais do que copos de plástico
para brindar
um fim de dia.
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Bússola
placas
e rotas
espalhadas
por todos os cantos
da memória
indicam
o que fazer
o que comer
o que dizer
o que...
o que...
o quê?
fácil mesmo
é estar perdido:
dentro da gente
tem um treco
chamado labirinto
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