olhos
desadaptados
à luz
do sol
fecham-se
e criam
um escuro particular
desde que inventaram
lentes negras
ver a verdade
em suas cores fortes
deixou de ser
rotina
o mergulho
e a subida
pedem por fôlego
opostos
que usam
da mesma graça
para evitar
a desgraça
lábios trincados
deixavam espaços
sem serem preenchidos
pelo batom
a boca, quieta,
nada revelava
já a tentativa
de um sorriso
escancarava os vãos
vazios de cor
dados
processados
com o corpo
na horizontal
a bateria
quase sem carga
aguenta
mais cinco minutos
de águas passadas
cinco minutos
se passam:
o corpo
apita o fim
da carga
e o escuro
traz um pouco
de paz
faz conservas
e prolonga
a vida
de pepinos
cebolas
e outras coisas miúdas
coloca em potes
cheios de líquido
e sal
a própria vontade
de viver para sempre
Fazia tempo
que a sombra e o chão
não se encontravam.
O último encontro
tinha sido
há algumas semanas.
Um encontro rápido
como quando
a gente esbarra
por acaso
num amigo
na multidão.
Hoje, porém,
sombra e chão
conversaram
quase uma tarde
inteira.
As nuvens
que os separavam
foram separar
sombra e chão
de outro lugar.
trazia
a garrafa térmica
no bolso
da bolsa
cheia
de líquido quente
fervido às pressas
antes do sol nascer
quando o sol nascia
declarando o dia
tirava do bolso
da bolsa
a garrafa térmica
e bebia
o líquido
morno