fragmentos
do que fui
quis
fiz
ficaram
no passado
entre móveis
e objetos
e pratos
e pelos
de gatos
engraçada
a vida
que te mutila
e assim
te faz inteira
entrou
no mar
com a cabeça
antes dos pés
do mergulho
profundo
veio à superfície
sem qualquer esforço
e sem esforço
ali ficou
incomunmente viva
à deriva
derivando
derivando
não há algemas
que segurem
o balé das águas
e o poder
do vento
suspeito
que o que sinto
é obra
do sujeito
abstrato
que não dá as caras
e que se esconde
entre os concretos
erguidos
no meu coração
Logo à frente
tem o retorno
que procuro
Um círculo
que circulo
e circulo
e perco o rumo
e me encontro
um pouco
de dança
descalça
sozinha
no corredor
e na cozinha
não faz mal
a ninguém
só ao dedão
do pé
e ao calcanhar
que doem
a dor
que mais
vale a pena
descobri
uns sentimentos
que estavam largados
por aí
no sol
na chuva
no vento
ao relento
escorados na parede
descascando com o tempo
trouxe para dentro
- só não sei
por quanto tempo -
tenho fome
de coisas doces
e salgadas
e amargas
mas tenho
mais fome
de coisas azedas
o azedo
faz meu rosto
fazer careta
feito criança
isso adoça
os meus dias