poemas segredos
escrevo
com caneta
sem tinta
para ler
tem que ver
além do branco
e das linhas
a verdadeira poesia
reside
no invisível
invejo
os bichos pequenos
os menores
os feios
os que se arrastam
e somem
nos vãos
invejo
essa habilidade
de desexistir
para os outros
somem
quando querem
os bichos pequenos
eles
se bastam
um discurso
falho
falo
falho
tentando
falar bonito
com contexto
com texto
com começo
meio e fim
falha minha
insistir
em reproduzir
o jeito certo
das coisas
quando eu mesma
sou toda falha
até na fala
bate
um gosto amargo
embrulha o estômago
esse amargo
domina a boca
amarra a garganta
espanca a alma
esse amargo
me rendo
ao amargo
e penso:
esquecemos
de adoçar
a vida
um rastro ficou
por onde
passei
um rastro ficou
vazou
um tanto assim
de mim
lavaram
com a mangueira
escorri
com a sujeira
corpo imóvel
mente inquieta
refugio-me
no silêncio
faço nele
um casulo
hiberno
em meu inferno
e meu calor
interno
costuram
as minhas
imperfeições
todas elas
costuram por cima
por baixo
pelos lados
alguns pontos
ficam abertos
e por eles
vazo
meu espelho reflete
uma colcha
de retalhos