um volta
no quarteirão
procurando
o que perdi
e nada
alguém encontrou
o que é meu
e levou
uma vida
dando volta em mim
procurando
o que perdi
e nada
ainda
não me encontrei
bato de frente
olho no olho
confronto
sem medo
não meço
palavras
ataco
reajo
no espelho
faço minha guerra
e fico
em paz
nunca guardo
poemas
na gaveta
na gaveta
guardo
a lixa de unha
os remédios
o colírio
o halls preto
o isqueiro
os incensos
na gaveta
guardo até
os cartões de visita
que nem sei
onde peguei
mas nunca
nunca guardo
poemas
na gaveta
não guardo
perecíveis
poesia
é instante
pago conta
pago o pato
apago
me apego
desapego
pago o preço
que for
para ser
liberdade
na calçada
que subo
desce a mulher
seu filho
e suas sacolas
de plástico
quanto mais
eu subo
mais
ela desce
nos cruzamos
em algum trecho
dos caminhos
não sei
o dela
ela não sabe
o meu
nos olhos
da mulher
vi
pequenos suicídios
diários
o que será
que ela viu
nos meus
debaixo
da cama
um entulho
de sonhos
só podem
ter caído
entre sonos
e insônias
só olhei
não tirei
não varri
não mexo
no que não é meu
se eu
fosse mapa
seria a parte
desbotada
ou borrada
ou mastigada
por traças
seria a parte
que se olha
e não se sabe
se é morro
ou vale
ou mar
ou abismo
se eu
fosse mapa
você estaria
perdido