toda dor que se sente
é a vida lembrando
um pouco da morte
é ela alertando
pelo muco
pelo febre
pelo olho fundo
que vendemos o riso
e que vivemos raso
todo sangue que se tira
é a vida lamentando
se é assim,
sem riso
e raso
que queremos viver
o café passado
duas vezes
no mesmo filtro
no meio
de uma manhã
de domingo
me lembra
que a vida
pode ser
inteira
a mim
não cabe
o palco
nasci
pra viver miúdo
enxergar
o que há no vão
na palma da mão
no miolo do pão
viver à margem
mergulhar na lágrima
explorar o poro
dissecar a dor
a mim
não cabe
palco
nem palanque
respeito menos
o aplauso
que o silêncio
se um dia
a gente
despertasse
e quisesse
voar
a gente
cairia
no chão
na rede
na real
de que
a gente
não sabe mais
o que é
liberdade
todos os dias
todo mundo
escolhe uma roupa
pra sair
trabalhar
visitar
resolver
comprar
amar
mentir
trair
…
todos os dias
todo mundo
escolhe uma roupa
e nem pensa
que este
pode ser
o último traje
antes
de alguma tragédia
nenhum bicho
me fascina mais
que o homem
essa espécie
com capacidade rara
de criar tudo
arranha-céu que arranha o céu
avião de toneladas
cirurgia para consertar cara
peito
bunda
mas o que mais
me fascina
no homem
é seu talento
de criar abismos
em espaço minúsculos
como nos vãos
entre abraços
supostamente
apertados
a quem insiste
em reencontros
saiba
que em mim
nada
reencontraria
transformo
transmuto
troco de pele
não sou mais
aquele eu