quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Bloqueio


tudo tão claro
a sua frente
e a coragem, inexistente,
impedindo que visse
e vivesse
o fragmento de mundo
que, sozinho, abriu as portas
e pousou ali

um medo que cegava
parcialmente
feito cortina branca
que abafa o sol
mas não impede a claridade
de entrar
e repousar
sobre o móvel
e sua camada de poeira

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Coletânea

coleta seletiva
de observações individuais
e intrigas coletivas
vou juntando
e arquivando
uma a uma
numa espécie
de catálogo de histórias
que dariam um livro
- um belo e completo exemplar -
de rascunhos vividos

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Sala de espera

Ao fundo, a música.
Parecia a mesma música que ouvia quando pequena na casa dos avós, naqueles almoços de domingo que corriam por toda tarde. Não sabia quem cantava, se quando tocava era no rádio ou no vinil. Apenas sabia que era parecida, se não era a própria, melodia da sua infância.
Olhou para a mulher sentada no banco à sua frente na intenção de descobrir, em um movimento, um balançar de pés ou batuque de dedos, se a música também trazia alguma lembrança para ela. Imaginou que ela teria uma idade próxima a sua. Teriam sido crianças na mesma época. Teriam brincado das mesmas coisas. Teriam ouvido as mesmas canções.
Cogitou perguntar à mulher se ela conhecia aquele refrão, mas não deu tempo.  O painel de senha apitou e a mulher se levantou. Caminhou rumo ao consultório e, quando de lá saísse, a canção já teria terminado e uma outra música já teria ativado uma outra lembrança.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Amor sovado


você vem com os secos
eu com os molhados
e a gente mistura tudo
feito massa de pão

amasso eu
amassa você
amansando nossas massas
deixando pro tempo
adolescer

as massas
amassadas demais
assim permanecem
deixando pro tempo
a função de apodrecer

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Sina



fruta lavada
embrulhada no papel
e em sacola plástica
de farmácia
amassa
dentro da bolsa
fica roxa
e mesmo triste
machucada
toda marcada
enfrenta os dentes
e mata a fome
de quem a mata

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Medida

Parada em frente estava ela
deitada como de costume
e como sempre
colocando medida em tudo

Me media, eu sabia
media meus olhos
minha boca
minha face
durante todo o tempo
que eu passava
sentada
a sua frente

Ah se seus centímetros
pudessem medir
o tempo que passo
olhando para ela
pensando
o quanto uma vida
sem medida
seria uma boa pedida