faz conservas
e prolonga
a vida
de pepinos
cebolas
e outras coisas miúdas
coloca em potes
cheios de líquido
e sal
a própria vontade
de viver para sempre
Fazia tempo
que a sombra e o chão
não se encontravam.
O último encontro
tinha sido
há algumas semanas.
Um encontro rápido
como quando
a gente esbarra
por acaso
num amigo
na multidão.
Hoje, porém,
sombra e chão
conversaram
quase uma tarde
inteira.
As nuvens
que os separavam
foram separar
sombra e chão
de outro lugar.
trazia
a garrafa térmica
no bolso
da bolsa
cheia
de líquido quente
fervido às pressas
antes do sol nascer
quando o sol nascia
declarando o dia
tirava do bolso
da bolsa
a garrafa térmica
e bebia
o líquido
morno
o varal
hospedava
apenas três peças
de roupa
nenhuma delas
muito velha
e todas elas
meio mortas
o peso
da água
desmaiava
mangas
pernas
e saia
a língua rosa
de tanta pastilha
sabor framboesa
dava uma cor
meio da infância
à boca
e um certo
tom de graça
tão necessário
naqueles dias
frios
de sol cenográfico
que só esquentava
o que estava
mais próximo das nuvens
o toca-discos
varria as linhas
do vinil
e levava
a sujeira
na ponta do pé
a cada giro
o pé
enroscava
no pó
limpando
o caminho
para a melodia
o pé
que nunca se cansava
só parava
quando a música enjoava
a visita chegava
a noite acabava
tirou do armário
o que não servia
não queria
e nem sabia
que tinha
tirou tudo
e colocou de volta
só o que usaria
o par de asas
ficaria ótimo
com os pés descalços