afoguei
em mim
era tanta água
com sal
que me afoguei
e refoguei
pés
pernas
e corpo todo
com o pouco
que tinha
improvisei
e de mim mesma
fiz receita
completa
admiro
a dor
admiro
ao mesmo tempo
que temo
a dor
admiro
e temo
a dor
e seu talento
de ser mais
que dor:
de ser lágrima
verso
receita
projeto
bares
e caminhos mais longos
para os mesmos trajetos
assovio errado
ouvi isso
de quem sabe
assoviar
puxo o ar
pra dentro
encho o peito
ao contrário
de quem sabe
assoviar
prefiro assim:
do meu erro
faço música
e acomodo
o coração
entre punhados
de ar
fragmentos
do que fui
quis
fiz
ficaram
no passado
entre móveis
e objetos
e pratos
e pelos
de gatos
engraçada
a vida
que te mutila
e assim
te faz inteira
entrou
no mar
com a cabeça
antes dos pés
do mergulho
profundo
veio à superfície
sem qualquer esforço
e sem esforço
ali ficou
incomunmente viva
à deriva
derivando
derivando
não há algemas
que segurem
o balé das águas
e o poder
do vento
suspeito
que o que sinto
é obra
do sujeito
abstrato
que não dá as caras
e que se esconde
entre os concretos
erguidos
no meu coração
Logo à frente
tem o retorno
que procuro
Um círculo
que circulo
e circulo
e perco o rumo
e me encontro