me prenderam
num corpo
de gente
numa gaiola
de pele
por dentro
sou pássaro
concentro
na respiração
puxo o ar
conto o tempo
prendo o ar
conto o tempo
solto o ar
ele sai
furacão
dias de sol
crianças brincam
com suas sombras
assisto
queria eu
poder brincar
com as sombras
que me seguem
até nos dias nublados
um volta
no quarteirão
procurando
o que perdi
e nada
alguém encontrou
o que é meu
e levou
uma vida
dando volta em mim
procurando
o que perdi
e nada
ainda
não me encontrei
bato de frente
olho no olho
confronto
sem medo
não meço
palavras
ataco
reajo
no espelho
faço minha guerra
e fico
em paz
nunca guardo
poemas
na gaveta
na gaveta
guardo
a lixa de unha
os remédios
o colírio
o halls preto
o isqueiro
os incensos
na gaveta
guardo até
os cartões de visita
que nem sei
onde peguei
mas nunca
nunca guardo
poemas
na gaveta
não guardo
perecíveis
poesia
é instante
pago conta
pago o pato
apago
me apego
desapego
pago o preço
que for
para ser
liberdade