quarta-feira, 15 de maio de 2013

Rosa


A rosa vinha pendurada no peito
rosa cobre
que cobria parte do peito

O peito, em parte, era sossego
sossego que vinha de dentro,
de dentro do peito

A outra parte do peito era espinho
não espinho da rosa
mas do despeito

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Gaveta


Da gaveta que cabe tudo
às vezes vaza
um monte de coisas
da alma
da lama
na mala

vaza acaso
vaza atraso
vaza caso
às vezes vaza
tanta coisa
que a gaveta parece rasa.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Janela


Ela não saía daquela janela. Pelo menos não nos momentos em que eu passava de manhã pela rua, sempre na calçada correspondente à minha direita, procurando um pouco de sombra. Não que a direita fosse algum tipo de obsessão ou toc. Nem a sombra era uma obsessão ou toc. Digamos que era um hábito, criado assim, do nada. Talvez tão do nada quanto o hábito da mulher de ficar na janela. Quando será que ela começou a fazer isso? Será que tinha visto uma coisa muito interessante um dia e esperava ver novamente? Será que tinha visto alguém especial? Será que gostava de cachorros e ficava ali esperando os donos levarem – e serem levados – pelos seus bichos para passear? Ou seria um hábito desinteressado mesmo, que aconteceu do nada. Simplesmente ir para a janela e ali ficar. Não sei. Poderia ser uma obsessão também, um toc. Mas por janela? Nunca ouvi falar de alguém obcecado por janela. Enfim. O fato é que todo dia eu passava por ali, cedinho, do lado direito da calçada, fugindo do sol, e ela estava lá, olhando para tudo e para nada ao mesmo tempo. Como um mantra. Ela na janela, eu passando pela sombra, do lado direito da calçada. Ela na janela, eu passando pela sombra, do lado direito da calçada.
Hoje, atipicamente, o dia amanheceu sem sol. Passei pelo lado direito da calçada, desta vez tomada inteira pela sombra. Procurei a mulher na janela. Ela não estava.
Ou não estava porque o sol não veio, ou o sol não veio porque ela não estaria mais lá.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Efeito

efeito efêmero
quando desfeito,
sinto
omito
ou minto
ou camuflo o grito
se grito,
dessinto

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Cereja

Deixei pro final a melhor parte
Separei de canto
No prato
Pra mais tarde dar um trato
Passou alguém e levou
Fui atrás de imediato
E flagrei o ato
Limpava o canto da boca e o tato
Na ponta de um guardanapo

Cruzamos os olhos
Fizemos contato
ele, estupefato,
pegou minha mão, muito grato
lascou-me um beijo barato
cheio de um sentimento insensato

Deixamos pro final a melhor parte

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Caro

Caro,
que já nem posso chamar de meu
“Meu Caro”
agora só Caro, não te quero
saiu caro te tratar como pronome
saiu caro como o pronome, em seu nome, destratou
Saiu caro te tratar, Caro.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Média

Como com a mão
E lambo a manteiga
Que pelo canto foge do pão
Lambo a ponta dos dedos
Lambo todos os dedos
Lambo a mão
Cato as casquinhas no prato
Engulo de imediato
Acompanhado de um gole
Um longo gole
Num tempo de migalhas
Que um pingado mesmo que gelado
Já é acima da média