quinta-feira, 23 de maio de 2013

Suspiro


Um respiro fundo
soltou um suspiro longo
no ar

passou um vento
e soprou o suspiro
para longe

lá,
o suspiro foi respirado
por alguém
que também suspirava

terça-feira, 21 de maio de 2013

Monólogo


Dois pingos anunciaram a chuva. Bastou para estender a mão e chamar o primeiro táxi que viu. Coisa de minuto, um carro vago parou.
- Boa tarde.
- Boa tarde.
- Preciso ir aqui perto. Pode subir a avenida. Vou ficar no metrô.
- Pode deixar.
...
- Chuvinha bem na hora que as pessoas tão saindo do trabalho, né?
- Pois é.
- Nessas horas é bom trabalhar com táxi. Não tomo chuva, se tá quente, ligo o ar.
- É verdade.
- Eu gosto do meu trabalho, sabe? Tirando o trânsito, que faz as pernas doerem e tira a gente do sério. Mas é um bom trabalho. Uso o carro no final de semana para ver meus filhos, no interior.
- Sei.                                     
- Tenho um de 7 e outro de 3. Moram com a mãe. Ela arrumou outro. Mudou com ele e levou as crianças. Parece estar feliz. Não vou muito com a cara dele, mas cuida bem dos meninos e isso que importa.
- É verdade.
- Eu gostava dela. Mas, vou te falar, acho que foi o melhor que aconteceu. No começo eu sofri, viu. Não entendi nada. Fiquei revoltado. Fiquei sem ver as crianças um tempão. Mas passou. Hoje eu consigo falar com ela. Temos até uma amizade. E é bom pras crianças. Eu não tive pai, sabe? Sofri por isso. Uma criança precisa de um pai. Por isso agora eu vou todo final de semana buscar os meninos. Pego eles no sábado de manhã e levo embora no domingo final da tarde. Eles gostam de ficar aqui comigo. Lá não tem shopping. Eles ficam louquinhos pra ir no shopping.
- É. Criança gosta.
- Dizem que vão fazer um shopping novo aqui por perto. Parece que vão demolir umas casas antigas. Foi o que ouvi. Se for verdade vai ser bom para quem mora aqui na região. Mas esse trajeto que eu tô fazendo com a senhora demoraria o dobro do tempo, sabia? Todo lugar que tem shopping o trânsito dá uma travada. É por causa do entra e sai de carros. Sabia que...
- Pode parar aqui, está ótimo. Aqui o dinheiro.
- Muito obrigado. Tenha uma boa noite, senhora.

- Oi querido, tudo bem? Nossa, você não tem ideia de como tava o metrô. É só chover que essa cidade para da vez. Tava um empurra-empurra. E na hora de baldear? Quase fui atropelada por um moleque. Nossa, que raiva. Vontade de dar uma bolsada nele. Vai querer comer o que? A gente podia pedir alguma coisa. Tô tão cansada. Pode ser? Quer comer agora? Querido?
- Oi?

sábado, 18 de maio de 2013

Signo


Antes de escurecer
muita coisa acontece
e tece no peito
um sentimento
de fazer acontecer.

O que acontece em mim
não acontece em você
e o sentimento
de acontecimento
desfalece.

Acontece que fazer assim
é uma sina
que sigo
e que seus olhos decretam
ser teimosia, ser signo.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Rosa


A rosa vinha pendurada no peito
rosa cobre
que cobria parte do peito

O peito, em parte, era sossego
sossego que vinha de dentro,
de dentro do peito

A outra parte do peito era espinho
não espinho da rosa
mas do despeito

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Gaveta


Da gaveta que cabe tudo
às vezes vaza
um monte de coisas
da alma
da lama
na mala

vaza acaso
vaza atraso
vaza caso
às vezes vaza
tanta coisa
que a gaveta parece rasa.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Janela


Ela não saía daquela janela. Pelo menos não nos momentos em que eu passava de manhã pela rua, sempre na calçada correspondente à minha direita, procurando um pouco de sombra. Não que a direita fosse algum tipo de obsessão ou toc. Nem a sombra era uma obsessão ou toc. Digamos que era um hábito, criado assim, do nada. Talvez tão do nada quanto o hábito da mulher de ficar na janela. Quando será que ela começou a fazer isso? Será que tinha visto uma coisa muito interessante um dia e esperava ver novamente? Será que tinha visto alguém especial? Será que gostava de cachorros e ficava ali esperando os donos levarem – e serem levados – pelos seus bichos para passear? Ou seria um hábito desinteressado mesmo, que aconteceu do nada. Simplesmente ir para a janela e ali ficar. Não sei. Poderia ser uma obsessão também, um toc. Mas por janela? Nunca ouvi falar de alguém obcecado por janela. Enfim. O fato é que todo dia eu passava por ali, cedinho, do lado direito da calçada, fugindo do sol, e ela estava lá, olhando para tudo e para nada ao mesmo tempo. Como um mantra. Ela na janela, eu passando pela sombra, do lado direito da calçada. Ela na janela, eu passando pela sombra, do lado direito da calçada.
Hoje, atipicamente, o dia amanheceu sem sol. Passei pelo lado direito da calçada, desta vez tomada inteira pela sombra. Procurei a mulher na janela. Ela não estava.
Ou não estava porque o sol não veio, ou o sol não veio porque ela não estaria mais lá.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Efeito

efeito efêmero
quando desfeito,
sinto
omito
ou minto
ou camuflo o grito
se grito,
dessinto