quando tudo
estava pesado demais
e a voz dentro
insistia em gritar
ela segurava
o grito
em seu silêncio
desabafava com os pés
criando tsunamis
em poças d’água
machuquei
a árvore
para não perder
a poesia
era só o que tinha:
eu
a árvore
e uma pedra
achada no chão
tatuei
os versos
no tronco
sem pedir
permissão
escolheu
o braço
a dobra do braço
como ponto de pouso
e ali
descarregou
o que tinha
dentro de si
o veneno
aparentemente inofensivo
criou um vulcão
epidérmico
que quando apertado
coça
e solta lava vermelha
olhos
desadaptados
à luz
do sol
fecham-se
e criam
um escuro particular
desde que inventaram
lentes negras
ver a verdade
em suas cores fortes
deixou de ser
rotina
o mergulho
e a subida
pedem por fôlego
opostos
que usam
da mesma graça
para evitar
a desgraça
lábios trincados
deixavam espaços
sem serem preenchidos
pelo batom
a boca, quieta,
nada revelava
já a tentativa
de um sorriso
escancarava os vãos
vazios de cor
dados
processados
com o corpo
na horizontal
a bateria
quase sem carga
aguenta
mais cinco minutos
de águas passadas
cinco minutos
se passam:
o corpo
apita o fim
da carga
e o escuro
traz um pouco
de paz