Graça ficou até sem graça com o moço engraçado. Era engraxate.
Todo sujo de graxa, fazia graça com tudo, o que deixava Graça ainda mais sem graça,
mesmo achando graça. Foi então na padaria da esquina e pediu um pão na chapa.
Era para o moço engraxate, que deu o ar da graça naquele dia em que Graça
acordou achando a vida uma desgraça.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
sexta-feira, 12 de julho de 2013
Mensagem
Pedaço de papel velho
escondido no fundo do
guarda-roupa
escondia letras miúdas
aglomeradas em seis
palavras
e dividas em três linhas
Um trecho pequeno
em bom e claro português
ainda com tinta forte
grafava
o que não mais
podia entender
Tentei traduzir
para outra língua
com a ajuda do
dicionário
li
de trás para frente
reescrevi
e nada
Amassei e joguei fora
a lembrança que não
lembrava
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Gota
gota de água
escorre dos olhos
e corre no ar
ao encontro do chão
a gota estilhaça
esparrama
na grama
um pouco de graça
e, de graça, talvez
brote um gomo
no chão
sexta-feira, 5 de julho de 2013
Até
a janela amanheceu aberta
o céu encoberto
você descoberto
a cerveja amanhecida
boa companhia
de quem um dia
cruzou os braços
para uma vida repartida
na ponta dos pés
deixei para trás
nosso após
até que foi breve
a despedida
depois de tão longa
e padecida
alma dividida
quarta-feira, 3 de julho de 2013
Instantaneamente
A velocidade
da resposta
- instantânea
-
mudou o
instante
o semblante
e o
sentimento fulminante
tomou conta
- assim -
instantaneamente
O hesitar
saiu dos planos
que se
entrelaçaram
embaixo dos
panos
por cima dos
sonhos
ao longo dos
anos
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Dia frígido
As lentes dos óculos embaçavam com o calor do corpo. Na rua, por volta
dos quatorze graus - bem mais frio do que ele imaginava que estaria.
Naturalmente, não vestia um casaco reforçado e usava calças de tecido fino. Sentia
os pelos das pernas arrepiarem a cada vento que batia contra seu corpo. Andava
com pressa, apesar das pernas duras e dos músculos contraídos. Como sempre,
comprava um pingado na lanchonete próxima ao trabalho. Desta vez, pediu dois.
Tomou um no balcão e embrulhou o outro para viagem. Quatro reais. Pagou com moedas.
Quatro moedas de um real. O dono da lanchonete, um senhor barrigudo e de cara
fechada, pegou as moedas e enfiou no bolso do avental encardido.
Seguiu seu caminho. Atravessou a rua, andou mais alguns metros e entrou
no escritório. Ligou o computador e, enquanto a máquina pensava, tomou o outro
pingado e foi ao banheiro. Voltou para sua mesa, sentou, afastou a cortina que
encobria a janela e começou a checar os e-mails. Dois novos deles na caixa de
entrada. O primeiro, um vírus. Cobrança. O segundo, a ex-namorada. Cobranças.
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