terça-feira, 29 de maio de 2012

Sinceramente


Ouvi a verdade da boca mais sincera.
Há tempos era uma boca distante. Desde sempre, a mais próxima.
Engraçado como as palavras vindas dela batiam fortes, mas não doíam.
Batiam brutalmente fortes, mas não doíam.
Batia também a saudade daquela sinceridade.
Batia brutalmente forte. E doía.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Pena


A pena, olhando para a pena, sentiu pena de sua solidão.
- Por que vagas sozinha? – perguntou a pena à pena.
- Estava fraca demais e caí da asa da minha liberdade.
- Que pena.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Hoje não

Viva intensamente o seu passado
Esqueça o hoje
Ignore o amanhã
Sofra, choramingue
Remoa tudo
Tudo
Tu

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Sem parar

Correu tanto, tão rápido, que nem viu a vida passar.
Não viu a cor da rosa que relava na janela no quarto.
Não viu a cicatriz desenhada de tanto trombar na pressa.
Nem a rachadura no canto da parede da sala.
Nem a correspondência anônima de alguém que amava.
Correu tanto, tão rápido, que mal passou pela vida.
Não ouviu a história que a mãe contava.
Não ouvia a crítica que o sábio dava.
Nem a música orquestrada pelo vento e as folhas.
Nem o sussurro de alguém que amava.
Correu tanto, tão rápido, que passou mal pela vida.
Não viveu o momento que insistiu em acontecer.
Não viveu a alegria de tranquilo adormecer.
Nem o êxtase de acertar e reconhecer.
Nem a maturidade de errar e não sofrer.
Correu tanto, tão rápido, que nem viu a vida acabar.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Não conto

Não quero escrever um conto pensando em escrever um conto. Nem me importo se o que chamo de conto não se parece com um conto. O que quero contar vai além do conto. Vai além dos dias, das noites. Do sapato molhado e dos espirros vazios. Dos passeios sozinha pelo centro. Da companhia do gato preto. E do branco e preto. Do prato cheio e do estômago vazio. Do prato cheio e do estômago cheio. Da música alta no trânsito. Da vontade de correr como antes. Da paz que o silêncio já trouxe. Do silêncio que não dá vontade de quebrar. Do conto, que nem mais conto as linhas e os pontos.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Concreto

No topo daquela árvore jurei o meu amor
E à toda prova moldei o que chamei de lar
De barro duro fiz as paredes
De pequenas pedras as enfeitei para seu olhar

Se soubesse que o amor seria perecível
Trabalho não teria em construir
O que um dia sonhei ser nosso
O que várias noites, ansioso, não dormi

Logo que você se foi
O topo daquela árvore tombou ao chão
Ali ergueu-se um robusto prédio
Ali enterrou-se meu coração

Arrumei um cantinho para mim
Nos vãos daquela estrutura fria
E hoje sozinho sigo
Como João de Ferro e Viga

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O rio

Lá de cima a gente via o rio salgado que passava. Diziam que não podia chegar muito perto, muito menos tocar naquelas águas. Diziam que quem ia até lá não voltava mais. Acho que ninguém sabia ao certo o motivo.
Por que alguém haveria de infringir? Por que esse alguém seria eu? Seria eu. E um dia, fui.

De madrugada, quando a lua colocava-se a iluminar a copa das casas, saí cidade afora. Lembrava-me das histórias que meu avó contava sobre o rio. Em uma delas, ele descrevia um atalho por entre os morros. Não havia placas, nem guardas. Na ausência de caminhos, segui o que me mandava as lembranças.

A cada flash da memória, um passo na direção certa e um aperto no peito. Havia encontrado a trilha proibida. E, em seu fim, encontraria a verdade.

O êxtase de chegar era maior que o bom senso; a curiosidade, maior que a disciplina. Aproximei os pés da margem e, num instinto, mergulhei as mãos nas águas e trouxe até os lábios. Conhecia aquele gosto. Era de lágrimas.

E agora, eu era a nascente.