Correu tanto, tão rápido, que nem viu a vida passar.
Não viu a cor da rosa que relava na janela no quarto.
Não viu a cicatriz desenhada de tanto trombar na pressa.
Nem a rachadura no canto da parede da sala.
Nem a correspondência anônima de alguém que amava.
Correu tanto, tão rápido, que mal passou pela vida.
Não ouviu a história que a mãe contava.
Não ouvia a crítica que o sábio dava.
Nem a música orquestrada pelo vento e as folhas.
Nem o sussurro de alguém que amava.
Correu tanto, tão rápido, que passou mal pela vida.
Não viveu o momento que insistiu em acontecer.
Não viveu a alegria de tranquilo adormecer.
Nem o êxtase de acertar e reconhecer.
Nem a maturidade de errar e não sofrer.
Correu tanto, tão rápido, que nem viu a vida acabar.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Não conto
Não quero escrever um conto pensando em escrever um conto. Nem me importo se o que chamo de conto não se parece com um conto. O que quero contar vai além do conto. Vai além dos dias, das noites. Do sapato molhado e dos espirros vazios. Dos passeios sozinha pelo centro. Da companhia do gato preto. E do branco e preto. Do prato cheio e do estômago vazio. Do prato cheio e do estômago cheio. Da música alta no trânsito. Da vontade de correr como antes. Da paz que o silêncio já trouxe. Do silêncio que não dá vontade de quebrar. Do conto, que nem mais conto as linhas e os pontos.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Concreto
No topo daquela árvore jurei o meu amor
E à toda prova moldei o que chamei de lar
De barro duro fiz as paredes
De pequenas pedras as enfeitei para seu olhar
Se soubesse que o amor seria perecível
Trabalho não teria em construir
O que um dia sonhei ser nosso
O que várias noites, ansioso, não dormi
Logo que você se foi
O topo daquela árvore tombou ao chão
Ali ergueu-se um robusto prédio
Ali enterrou-se meu coração
Arrumei um cantinho para mim
Nos vãos daquela estrutura fria
E hoje sozinho sigo
Como João de Ferro e Viga
E à toda prova moldei o que chamei de lar
De barro duro fiz as paredes
De pequenas pedras as enfeitei para seu olhar
Se soubesse que o amor seria perecível
Trabalho não teria em construir
O que um dia sonhei ser nosso
O que várias noites, ansioso, não dormi
Logo que você se foi
O topo daquela árvore tombou ao chão
Ali ergueu-se um robusto prédio
Ali enterrou-se meu coração
Arrumei um cantinho para mim
Nos vãos daquela estrutura fria
E hoje sozinho sigo
Como João de Ferro e Viga
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
O rio
Lá de cima a gente via o rio salgado que passava. Diziam que não podia chegar muito perto, muito menos tocar naquelas águas. Diziam que quem ia até lá não voltava mais. Acho que ninguém sabia ao certo o motivo.
Por que alguém haveria de infringir? Por que esse alguém seria eu? Seria eu. E um dia, fui.
De madrugada, quando a lua colocava-se a iluminar a copa das casas, saí cidade afora. Lembrava-me das histórias que meu avó contava sobre o rio. Em uma delas, ele descrevia um atalho por entre os morros. Não havia placas, nem guardas. Na ausência de caminhos, segui o que me mandava as lembranças.
A cada flash da memória, um passo na direção certa e um aperto no peito. Havia encontrado a trilha proibida. E, em seu fim, encontraria a verdade.
O êxtase de chegar era maior que o bom senso; a curiosidade, maior que a disciplina. Aproximei os pés da margem e, num instinto, mergulhei as mãos nas águas e trouxe até os lábios. Conhecia aquele gosto. Era de lágrimas.
E agora, eu era a nascente.
Por que alguém haveria de infringir? Por que esse alguém seria eu? Seria eu. E um dia, fui.
De madrugada, quando a lua colocava-se a iluminar a copa das casas, saí cidade afora. Lembrava-me das histórias que meu avó contava sobre o rio. Em uma delas, ele descrevia um atalho por entre os morros. Não havia placas, nem guardas. Na ausência de caminhos, segui o que me mandava as lembranças.
A cada flash da memória, um passo na direção certa e um aperto no peito. Havia encontrado a trilha proibida. E, em seu fim, encontraria a verdade.
O êxtase de chegar era maior que o bom senso; a curiosidade, maior que a disciplina. Aproximei os pés da margem e, num instinto, mergulhei as mãos nas águas e trouxe até os lábios. Conhecia aquele gosto. Era de lágrimas.
E agora, eu era a nascente.
Cegueira
Enquanto ria por dentro, continuou seu percurso. Subiu a rua sem se preocupar com o mendigo em que quase tropeçou ou com a criança que lhe estendeu a mãozinha suja e ressecada suplicando trocados (ou um abraço).
Enquanto ria por dentro, acendeu seu cigarro. Cada tragada era proporcional à ignorância diária que aos poucos matava seus alvéolos.
Enquanto ria por dentro, parou no boteco e pediu um salgado. A pressa para chegar existia, mas sempre havia uma exceção para a branquinha de saideira.
Enquanto ria por dentro, olhou os cartazes dos filmes adultos. Os mesmos filmes que vinha assistindo desde a sua desgostosa adolescência.
Enquanto ria por dentro, entrou no beco e cumprimentou o homem. Logo saiu com o pacote dentro da sacola amarela do mercadinho da rua de cima.
Enquanto ria por dentro, tomou o ônibus com os olhos mais atentos. Mas pouco se importou se o que estava fazendo era legal, moral, racional ou qualquer outra coisa de juízo.
Enquanto ria por dentro, desceu no ponto combinado, apertou a campainha do número 54 e foi recepcionado pelo magrelo de bigode, que abriu a porta apático.
Enquanto ria por dentro, entregou o pacote em troca das poucas notas sujas e colocou no bolso.
Enquanto ria por dentro, virou-se e disse até logo. A alegria de ter a moeda de troca para mais uma noite de vícios o impedia de desconfiar do mundo.
Enquanto ria por dentro, foi atingido pelas costas. As notas sujas voltaram para as mãos do magrelo de bigode e seu corpo foi jogado na fossa.
Enquanto sangrava por fora, o mendigo continuava sendo alvo de tropeços e a criança estendia a mãozinha suja e ressecada suplicando trocados (ou um abraço).
Enquanto ria por dentro, acendeu seu cigarro. Cada tragada era proporcional à ignorância diária que aos poucos matava seus alvéolos.
Enquanto ria por dentro, parou no boteco e pediu um salgado. A pressa para chegar existia, mas sempre havia uma exceção para a branquinha de saideira.
Enquanto ria por dentro, olhou os cartazes dos filmes adultos. Os mesmos filmes que vinha assistindo desde a sua desgostosa adolescência.
Enquanto ria por dentro, entrou no beco e cumprimentou o homem. Logo saiu com o pacote dentro da sacola amarela do mercadinho da rua de cima.
Enquanto ria por dentro, tomou o ônibus com os olhos mais atentos. Mas pouco se importou se o que estava fazendo era legal, moral, racional ou qualquer outra coisa de juízo.
Enquanto ria por dentro, desceu no ponto combinado, apertou a campainha do número 54 e foi recepcionado pelo magrelo de bigode, que abriu a porta apático.
Enquanto ria por dentro, entregou o pacote em troca das poucas notas sujas e colocou no bolso.
Enquanto ria por dentro, virou-se e disse até logo. A alegria de ter a moeda de troca para mais uma noite de vícios o impedia de desconfiar do mundo.
Enquanto ria por dentro, foi atingido pelas costas. As notas sujas voltaram para as mãos do magrelo de bigode e seu corpo foi jogado na fossa.
Enquanto sangrava por fora, o mendigo continuava sendo alvo de tropeços e a criança estendia a mãozinha suja e ressecada suplicando trocados (ou um abraço).
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Caos
Na beira do caos,
sem eira nem beira
Ia a triste senhora
cruzando a barreira.
Iam todos também,
sem fé nem piedade
Engarrafados em mágoa,
rancor e vaidade.
Parados em fila,
mortos já estavam.
Pediam arrego
Ao Deus que nunca acreditaram.
À beira dos maus,
murmurando asneiras
E assim terminando
mais uma quinta-feira.
sem eira nem beira
Ia a triste senhora
cruzando a barreira.
Iam todos também,
sem fé nem piedade
Engarrafados em mágoa,
rancor e vaidade.
Parados em fila,
mortos já estavam.
Pediam arrego
Ao Deus que nunca acreditaram.
À beira dos maus,
murmurando asneiras
E assim terminando
mais uma quinta-feira.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Ciclo
Mais uma vez, ligo a televisão. É tarde e o cansaço toma conta do corpo que, com muito esforço, caminha pelo corredor em direção à cozinha. Na geladeira, somente umas latas de cerveja. No armário, a solitária garrafa de vinho. “Só uma latinha”, penso.
O sofá duro e fedorento me aguarda de braços abertos. Nele repouso as costas magras e fixo o olho na tela, num olhar que vê, mas não vê. A hipnose é necessária e a palavra, falha. Duas, três, quatro latas. O álcool começa a amolecer as pernas. “Será que falta muito para adormecer o cérebro?”. O vinho, que era para depois, entorno agora. Dois, três, quatro copos. A droga acaba rápido e prolonga o acabar da vida.
Acordo com as costas moídas pelo sofá duro e fedorento. A visão dói, a cabeça lateja. O banho não lava a alma e, imundo, parto para a condução rumo a Praça da Sé.
Dez horas depois, estou em casa e, mais uma vez, ligo a televisão.
O sofá duro e fedorento me aguarda de braços abertos. Nele repouso as costas magras e fixo o olho na tela, num olhar que vê, mas não vê. A hipnose é necessária e a palavra, falha. Duas, três, quatro latas. O álcool começa a amolecer as pernas. “Será que falta muito para adormecer o cérebro?”. O vinho, que era para depois, entorno agora. Dois, três, quatro copos. A droga acaba rápido e prolonga o acabar da vida.
Acordo com as costas moídas pelo sofá duro e fedorento. A visão dói, a cabeça lateja. O banho não lava a alma e, imundo, parto para a condução rumo a Praça da Sé.
Dez horas depois, estou em casa e, mais uma vez, ligo a televisão.
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