terça-feira, 5 de março de 2013

Crédito

o crédito te deixa no débito

te laça
suja teu nome na praça
limpar não é de graça
desespero não se disfarça
o tempo só aumenta a desgraça
te corrói como traça
você se entrega, sem couraça

e o crédito te leva a óbito

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Irracional

 
Mão de vaca, caiu que nem um pato na conversa de um sangue de barata.
Serviu de bode expiatório e deu com os burros n’água.

Fez boca de siri. Passou por dias de cão, comendo feito passarinho e bebendo a água que ele não bebe.


Mas como bom espírito de porco,  quis dar o pulo do gato. Deu zebra.
O sangue de barata também tinha um gênio do cão.

Tirou o cavalo da chuva e, desde então, anda bêbado como um gambá.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Páginas


As primeiras páginas já tinham sido usadas por alguém. Um alguém que já não mais o usava.

E um caderno abandonado, deixado para trás, é um caderno sem dono. Pegou-o.
Ficou com dó de arrancar as folhas usadas. Coisa mais sem cabimento. Dó de algo que nem mesmo quem o teve um dia teve. Arrancou. Tudo. De uma vez.
A nova primeira página deixou em branco, num misticismo inconsciente.
Escolheu entre as canetas aquela que seria a fiel companheira do caderno.
Apresentou um ao outro com uma frase no início da, então, segunda página.
Uma página por dia.
Uma página por dia.
Uma página por dia escrevia, como um mantra.
Bastava para clarear as ideias.
Depois, guardava caderno e caneta na gaveta escura.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Metades


A laranja era daquelas cascudas. Cortei uma lasca fina no começo. No fundo, o que se espera de uma laranja é que ela tenha pouca casca e muita fruta. Mas essa era daquelas cascudas. Cortei mais fundo até chegar no limite do bagaço. Bem no limite. Segurei a faca cega com firmeza e tratei de descascar o resto. Os movimentos da mão com a faca eram pura maestria, um domínio quase perfeito. Ouvi meu nome. Olhei para o lado. A faca cega me cortou. Eu sangrei. A laranja soltou seu sumo como um veneno.

Um pouco na laranja estava em mim. E um pouco de mim, na laranja.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Capricho


O editor ligou perguntando do texto.
Disse que estava indo bem, que mandava no final do dia.
Ele me pediu capricho.

Fiquei pensando se ele pedia a mesma coisa para todo mundo. Se pedia texto com paixão para um, texto com emoção para outro, texto com cólera para alguém. Não sei. Só sei que ele me pedia com capricho, sempre.
Dei um olhada no que havia escrito nos últimos meses. Podia não ter nada de tão extraordinário, mas nada que faltasse capricho de fato. Pairei.

Mais tarde ele ligou de novo perguntando do texto.
Disse que ainda não estava pronto.
Ele me demitiu. Acho que por puro capricho.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Sede


“Os melhores perfumes estão nos menores frascos.”
Uma antiga máxima de gente chique.
Daí deve vir a moda das minigarrafas de água.
Minigarrafas azuis e verdes, de vidro.
As de plástico são de um plástico diferente. Um plástico mais firme que o das águas que gente normal bebe.
Um plástico resistente o suficiente para sustentar uma vida de plástico, talvez.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Dieta da verdade


Tinha dois problemas: estava acima do peso e era um mentiroso compulsivo. O primeiro deles era genético, herdado das famílias do pai e da mãe. O segundo foi adquirido; tornou-se crônico.

Sabia que algo precisava mudar. Como não tinha disciplina para tentar resolver um problema de cada vez, adotou uma tática drástica para perder os quilos e as mentiras que sobravam: para cada mentira contada, uma refeição a menos.

No início foi difícil. Chegou a passar dias seguidos sem comer – o que era uma tortura para uma boca acostumada a mastigar frituras e cuspir calúnias o tempo todo e sem peso na consciência.

Um deslize aqui, outro ali, foi seguindo com a dieta em sua rotina. Parecia estar dando resultado. Semanas depois, não acordou para ir ao trabalho. Havia morrido dormindo.

No laudo médico, o motivo da morte: desnutrição.
No laudo moral: não sobreviveu à verdade.